"A Luz de Pequim" volta a acompanhar as aventuras do inspetor Jaime Ramos
Filipa Martins lê o seu excerto favorito do novo romance policial de Francisco José Viegas.

E ao nono livro ficámos órfãos do investigador Jaime Ramos?

A ameaça de desistência surge nas primeiras páginas de "A Luz de Pequim" (Porto Editora, 2019): ao nono romance, o inspetor Jaime Ramos, a mais famosa personagem da investigação criada por Francisco José Viegas, acusa o cansaço de um mundo que se tornou um ressoar desconexo e admite encaixotar os charutos Ramon Allones, as agendas telefónicas, livros e garrafas por abrir e abandonar a secretária da Polícia Judiciária.

A obra arranca, como habitualmente nos policiais de Viegas, com um crime – um cadáver a fitar a Ribeira, no Porto, pendurado num dos pilares da Ponte Dom Luiz – e subsequente inquérito, mas rapidamente nos apercebemos de que há outra investigação em curso e que cabe ao leitor a recolha das pistas. Jaime Ramos e o seu passado representam a principal charada de 'A Luz de Pequim' a partir de um lugar de misantropia e decepção em que se encontra o protagonista.

As metodologias de investigação, colocadas no terreno por Jaime Ramos sem que para isso necessitassem do epíteto de metodologias de investigação, são alvo de um inquérito anacrónico, que revela falhas, omissões e os erros processuais do inspetor. Paralelamente, o nosso herói de combate ao crime enfrenta, devido a um pedido invulgar de um amigo, o seu passado comunista.

Apesar de julgar a sua personagem de forma implacável, Francisco José Viegas tem a humildade, apenas alcançada pelos grandes escritores, de se secundarizar em benefício desta: respeitando as escolhas crepusculares de Jaime Ramos, mas nunca deixando a escrita tropeçar ao ser manietada pelo burguesismo mundano do seu protagonista.  O que não quer dizer que não encontremos o ressoar dos passos do escritor a cada página, nomeadamente em aliterações de pensamentos como este: "Neste caso, disse ele baixinho, são a minúcia, a curiosidade e a falta de sentido. Sem isso não há investigação, não há culpa, não há castigo nem perdão. (...) O nosso trabalho é fingir que há uma ordem no mundo e que nós ajudamos a reconstruí-la de cada vez que há um crime".

Talvez 'A Luz de Pequim' não seja o policial perfeito previsto pelo cânone – a ação tende a avançar, principalmente, nas inflexões retóricas -, como Jaime Ramos não foi o investigador perfeito que a metodologia de investigação impõe. Neste caso, imperfeição é elogio e representa uma imensa alegria para o leitor porque põe em evidência a anatomia poética, a rugosidade e a omnipresença da escrita de Francisco José Viegas.

25/11/2019 às 17:15

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