Filipa Martins traz-nos de volta o aclamado livro "O Papagaio de Flaubert"
Mais de 30 anos depois, uma das melhores obras de Julian Barnes volta às livrarias.

Geoffrey Braithwaite é um médico viúvo inglês fascinado por Gustave Flaubert, que viaja até à terra natal do escritor francês, Rouen, após a morte da mulher. O destino é o próprio Flaubert, conhecer intimamente o autor de "Madame Bovary" e avançar para a escrita de uma hipotética biografia. À chegada, depara-se com uma situação inusitada: a presença de dois papagaios empalhados que, alegadamente, terão servido de modelo a Flaubert para escrever a obra "Um Coeur Simples". "Como é que se comparam dois papagaios, um já idealizado pela memória e pela metáfora, o outro um intruso ruidoso?", questiona o protagonista. Uma questão idêntica fará o biografo sobre o seu biografado e este papagaio, que é o ponto de partida insólito de "O Papagaio de Flaubert" (Quetzal, 2019), transforma-se numa metonímia do próprio escritor e das suas múltiplas facetas. À medida que avançamos na história de vida de Flaubert, questionamos a veracidade das peripécias e dos relatos contaminados por uma identificação evidente entre biografo e biografado.

Publicado pela primeira vez em 1984, "O Papagaio de Flaubert" é um dos mais aclamados livros do britânico Julian Barnes, agora reeditado pela Quetzal com tradução de Ana Maria Amador. Relê-lo mais de trinta anos passados desde a sua primeira edição mostra como as grandes obras sobrevivem à passagem do tempo. Barnes escreve com humor e sentimento, optando por um género híbrido e ensaístico, e a estrutura do livro é quase experimentalista ao incluir excertos de diários, cartas, listas, diálogos imaginários e reflexões. O conjunto resulta magistralmente.

As cronologias alternativas que Barnes nos apresenta da vida de Gustave Flaubert são um dos detalhes preciosos da obra. Com mestria, revela como um acontecimento, característica ou conquista podem ser relatados historiograficamente com pendores quase antagónicos, transformando o escritor num herói ou num falhado. A paixão de Flaubert, em 1836, por Elisa Schlesinger causticou-lhe o coração, tornando-o um ser incapaz de amar completamente, ou iluminou-lhe o resto da adolescência? À semelhança dos papagaios, não saberemos qual das versões — a trágica ou a apolínea —  é a postiça, completando provavelmente a unidade do autor.

23/12/2019 às 13:00

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